"Algumas pessoas escrevem para expiar suas loucuras interiores. Outras encontram nas letras uma maneira de recriarem o mundo ao seu bel prazer, brincando de Deus. Há ainda aquelas que vislumbram na literatura uma pequena trapaça à morte, como que intuindo que suas obras sejam capazes de transcender a presença física de seus autores. Ouça o Noturno de Chopin, leia o Macbeth de Shakespeare, admire a Guernica de Picasso, e ouse dizer que seus criadores se foram para sempre. Mas, o que dizer de alguém que já está morto? À semelhança de Brás Cubas, Depois que Acabou é obra de um defunto autor. Ou, no caso, de uma autora, que encontra sua morte por obra de um óculos de sol vagabundo e um caminhão de algumas toneladas. No entanto, ao contrário do que nos ensinam os livros espiritualistas ou filmes de Hollywood, Carla não foi para o céu ou o inferno, não viu nenhum túnel de luz nem fantasmas que a guiassem para outra dimensão. Muito pelo contrário, permanece presa à Terra, amargando a mais inconsolável das solidões e cercada por pessoas incapazes de ouvir, sentir ou sequer intuir sua presença. Sem uma única voz capaz de explicar seu post mortem, Carla relata sua história, munida com sua surpreendente capacidade de rir de si mesma e um afiado senso de observação do mundo, em busca da resposta sugerida nos versos de Jorge Luis Borges: "Chego ao meu centro,/ A minha álgebra e minha chave,/ A meu espelho./ Breve saberei quem sou". Poderia ser uma história para aterrorizar crianças, um episódio de Além da Imaginação, um sonho louco que esquecemos à luz da manhã, mas é muito mais do que isso. Depois que Acabou, o romance de estréia de Daniela Abade, é uma obra que retine na cabeça do leitor muito depois do término de sua leitura. É livro que surpreende a cada linha, cada parágrafo, cada capítulo, graças à destreza com que a autora inicia sua promissora carreira literária guiando seus leitores a uma espiral crescente de situações hipotéticas ma non troppo, que atordoam, ferem, incomodam, satirizam, iluminam nosso cotidiano. Depois que Acabou é leitura das mais sedutoras, daquelas que a gente só larga depois do ponto final e devora com gosto de "quero mais", mas também é uma metáfora contundente sobre a condição humana. É convite à reflexão, mas sem a sisudez dos tratados de filosofia. É um romance que integra, enfim, a estirpe daquelas obras que deixam o leitor em suspenso e incapaz de explicar suas sensações, mas que são recomendadas entusiasticamente aos amigos com interjeições desajeitadas: leia, leia, leia! "

Alexandre Inagaki - editor do Spamzine


"O  rompimento do eu com o mundo, num alheamento completo - e ideal. É assim, apartada de tudo que causa felicidade ou desgraça, que Carla, a protagonista de Depois que Acabou, é lançada em sua viagem existencial - pelas ruas de São Paulo e pelo mundo - em busca de uma redenção possível: a própria expressão literária."
Patrícia De Cia - jornalista
 

"Cotovelos apoiados na mesa, rosto entre as mãos, eu choro. Choro feito criança, soluçando. "Aconteceu alguma coisa?". Sim, aconteceu. Carla acaba de reencontrar seus pais numa ocasião nada agradável. A identificação é imediata e inesperada como um soco na boca do estômago, e eu choro. De dor, de tristeza, de arrependimento talvez. E de raiva de Daniela Abade, que conseguiu quebrar minha resistência logo no terceiro capítulo. ...A primeira página pega o leitor pelo colarinho, e não solta até a derradeira linha. A personagem principal é convincente; tanto que às vezes ando por aí meio desconfiado, achando que ela me segue. As referências históricas, geográficas, musicais e literárias emprestam ao livro uma aura de realidade que o torna mais perturbador ainda. E o refinado senso de humor, característica sempre presente no que a autora escreve, trabalha para suavizar certas arestas, evitando que a narrativa caia no abismo de angústia pura e seca em que muitos textos do gênero se perdem."

Marco Aurélio Gois dos Santos - criador do site Jesus me Chicoteia

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